quinta-feira, 9 de maio de 2013

Para encher o coração de terra


da série Encher o coração de terra. Fotografia digital. 2012. (Foto: Caruh Spisla)


vivemos quase dois anos numa casa que nomeamos de casa laranja. era um lugar que passava despercebido pela correria cotidiana de uma rua caótica. uma casa de fundo. antiga e de grandes janelas verde escuro.
não sabíamos o que existia lá dentro, ainda que, por um vão da porta, vimos o corredor de chão cinza e um pedacinho de terra. esperamos a casa ser desocupada. fazia tempo que o menino e eu rascunhávamos a possibilidade de refugiarmo-nos juntos no coração dessa cidade, que apesar de ‘nossa’, sempre nos foi tão distante e inapreensível.
foi necessário um desprendimento meu em relação à vida familiar, e essa atitude foi a primeira cicatriz do meu passo para a pseudo-liberdade.
algo maior, dentro do peito, oscilava. como um ataque cardíaco.
a casa se encontrava caótica como a rua que a abrigava. o pedacinho de terra, do ponto de vista de quem nunca teve um, era imenso, mas precisava ser cuidado; o estado em que estava não fazia nem mato crescer. já as paredes descascavam com o mínimo ruído do vento.
hoje, percebo que esse foi meu primeiro sortilégio. morar, para mim, era igual viver aos poucos, todo dia chegava a hora. era tudo peculiar e de tanto ser, acabei sendo tudo aquilo também.
pouco a pouco os quadros iam se acumulando nas paredes; o ritmo da casa era extensão nossa. almim, o gato, mesmo que amarelo, conseguia se camuflar pelas plantas, que, inebriadamente, iam se desenvolvendo, e expandindo por todo espaço. as trepadeiras faziam caminhos, procuravam lugares para se agarrarem. por pouco tempo ficavam sujeitas a se equilibrarem no ar, e logo cresciam um pouco mais, no ritmo em que os raios de sol as atingiam.
a terra vermelha parecia ter ficado fértil de um dia para o outro.
a terra daqui é feminina.
aos poucos, os dias anunciavam outra mudança. eu passaria quase um ano fora. o que mais doía, ou talvez, a única coisa que doía, era a possibilidade de voltar e essa casa eu não poder mais adentrar. e, quando voltei o menino já não estava mais nela.

a vontade era um chão gelado sob os pés.
passava diariamente em frente da casa afim de descobrir mais sobre sua movimentação. havia uma placa de vende-se, que com chuva ou sol não mudava de lugar. seu status demorou em ser outro. e, quando mudou, meu coração apertou ainda mais. ficava sempre com a sensação de que não ia ser bom. não imaginava alguém com um dinheiro desse tamanho, habitando aquele lugar tão singular. não era para isso. e realmente não foi.
três meses depois da venda, passei com meus passos errantes pela rua. era manhã e o sol trazia uma enorme claridade. ele me cegava. congelei no meio da rua ao ver alguns homens fazendo pilhas daquelas madeiras enormes. talvez fossem perobas. quase todas já em cima do caminhão.
o muro, o portão, as paredes. caíram todos. a beleza que ali prevalecia era luzidia. e as plantas, iam deixando de serem verticais para estarem fixadas horizontalmente na terra. elas foram sendo pisoteadas pelos pés e pelas telhas jogadas lá de cima.
o mundo não caiu, nem parou, não mudou de lugar. mas o vazio que fez no meu peito atingia e tingia - de laranja - todos meus pensamentos. passei o dia reconstruindo imagens, revivendo cenas.
cadeira sem acento, tinta no tapete da sala. a beleza de gertrudes. van gogh cansado. luz do sol desenhando na parede branca. as suculentas. o lodo e os musgos acentuados após os dias de chuva. chão vermelho. corações na janela. flores amarelas, logo depois, as buchas no banheiro. a raspa da panela. louça de dias. os móveis mudando de lugar. o filósofo e os tomates cereja . o vizinho gritava e o gato desesperadamente trepava no telhado. noites de insônias. olhos atentos ao abajur queimando. as velas e o tarot espalhado pelo chão, sempre interrogando nossas ações.
as pedras. os cantos.
nossas conchas sempre em regresso para outros mares.
.

marga branca, a lua ali parecia estar mais perto da terra, ou de nós.
estar no sereno era nosso elo entre céu e terra.

o gesto dele. gesto delicado


copiosamente, a partir desse dia, fui enchendo meu coração de terra.

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